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Depressão: o que é isso?

por Suiani Oliveira Fustinoni

Pedagoga/ Psicóloga/ Psicanalista

CRP. 06/123188



Parece que o homem contemporâneo está com maior tendência a deprimir-se, num único dia é muito comum escutar as seguintes frases: “Terminei meu relacionamento, tô deprimido”, “Briguei com meu chefe, tô em depressão”, “Não tenho ânimo para sair da cama, é depressão”. Mas será mesmo que a depressão é tudo isso? Será esse o nome para denominar os afetos, sentimentos e acontecimentos da vida?

O termo depressão tem sido utilizado por leigos para descrever diversas situações de desconforto emocional, que nem sempre acontecem de uma forma precisa. Tal termo abrange uma enorme variedade de situações psicológicas, tornando, muitas vezes, difícil sua adequada delimitação. Ele se refere a estados que vão desde ligeiras reações de desconforto, certos eventos vivenciais até à verdadeira doença depressiva, chamada Depressão Maior ou Melancolia.

Enquanto a tristeza pode se caracterizar como um sintoma que o sujeito vivencia diante de situações de ruptura, perda e término em sua vida os transtornos depressivos correspondem a uma tristeza profunda, com inibição psicomotora e lentificação dos ritmos fisiológicos. Por isso é importante essa primeira separação entre uma depressão reacional (de uma fase) e a depressão maior. Por exemplo, um professor reativamente deprimido consegue deixar sua tristeza “fora” da sala de aula, no momento em que está em interação com seus alunos e “pegá-la” de volta na saída em momentos que estiver sozinho, já alguém com depressão maior não consegue fazer esse tipo de operação. Enquanto a primeira é apenas uma reação psicológica e demanda tratamento psicoterápico/ psicanalítico, a segunda é uma doença que requer tratamento medicamentoso também.

A grande confusão que observamos é que quando abordamos o assunto da depressão a primeira coisa que passa pela cabeça de cada um é a parte de uma desordem fisiológica e bioquímica, algo que pudesse ser revertido apenas com medicações. Por mais que muitas pessoas deprimidas continuem chegando aos consultórios de psicologia e de psicanálise com esse desconforto é comum ficarem surpresas diante da oferta de uma escuta profissional. Quando são convidadas a discorrer sobre sua história, gostos, desgostos, lembranças, memórias permanecem por algum tempo numa espécie de anestesia, algo impacta nesse inicio, no exercício de observar que tal tristeza é um sintoma do próprio jeito da pessoa e não uma doença externa a ela que precisa ser combatida. Num mundo onde o imperativo é a rapidez, agilidade e resolução o convite ao autoconhecimento e reflexão ainda não práticas que causam estranhamento.

Na prática psicanalítica observamos que aquilo chamado de depressão é um quadro mais próximo da clínica das depressões reacionais/ lutos do que da depressão maior/ melancolia conforme abordado no início do texto. Quando um psicólogo, psicanalista ou psiquiatra se refere a uma depressão psicótica ou “endógena”, é bem provável que se refira a uma melancolia, não a uma depressão reacional. Isso vale inclusive para as depressões consideradas crônicas, que também podem ser, senão curadas, ao menos tratadas com os recursos da psicologia e psicanálise.

Isso aponta para questões importantes de saúde emocional, a primeira é que o sujeito deprimido por algum acontecimento em sua vida é um sujeito que passa por uma fase difícil, que naquele momento os recursos que têm disponíveis não estão sendo o suficiente para ultrapassar as barreiras. Um sujeito que com auxilio teria condições de se desenvolver emocionalmente. Outro ponto muito importante é que esse sujeito é aquele que conhece a realidade onde vive, tem uma boa distinção entre fantasia e realidade, tanto que consegue identificar que muitos dos seus pensamentos são irracionais. Esse recurso de critica é importante porque é o que promove a construção de laços sociais em diferentes espaços. É o sujeito que dialoga com sua família, amigos, trabalho, escola e comunidade.

Essas depressões participam das estruturas neuróticas da personalidade e é preciso tentar compreender sua singularidade. Não se confundem com estados de ânimo tais como tristeza, abatimento, desânimo, inapetência para a vida, embora todos estes participem também do sofrimento do depressivo. Por outro lado, também não se confundem com as ocorrências depressivas esporádicas a que todos estamos sujeitos em razão de perdas, fracassos ou lutos mal elaborados.

A questão que se coloca é: o que acontece na organização dessa estrutura de personalidade que abate o sujeito de uma forma tão avassaladora desde muito cedo?


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, S. Luto e Melancolia (1915). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

KEHL, M.R. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.

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